{"id":11576,"date":"2017-08-25T17:35:23","date_gmt":"2017-08-26T00:35:23","guid":{"rendered":"http:\/\/affirmation.org\/?p=11576\/"},"modified":"2021-10-03T10:00:41","modified_gmt":"2021-10-03T16:00:41","slug":"trajetoria-de-uma-mae-de-uma-mulher-transexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/affirmation.org\/pt\/trajetoria-de-uma-mae-de-uma-mulher-transexual\/","title":{"rendered":"A trajet\u00f3ria de uma m\u00e3e de uma mulher transexual"},"content":{"rendered":"<p><strong><span class=\"author-card__details-container\"><a class=\"author-card__details__name\" href=\"http:\/\/www.huffpostbrasil.com\/author\/ana-beatriz-rosa\" data-beacon=\"{&quot;p&quot;:{&quot;lnid&quot;:&quot;author&quot;}}\"><span class=\"author-card__details__name\">Ana beatriz rosa<\/span><\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span class=\"author-card__microbio desktop-only\">Rep\u00f3rter de Vozes, Mulheres e Not\u00edcias,\u00a0<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Huffpost Brasil<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/staging.afirmacao.org\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/http-2F2Fo.aolcdn.com2Fhss2Fstorage2Fmidas2F641e4cec3f8a8e9b2e77532c472e8d82F2052647322FIMG_1815.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-17303\" src=\"https:\/\/staging.afirmacao.org\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/http-2F2Fo.aolcdn.com2Fhss2Fstorage2Fmidas2F641e4cec3f8a8e9b2e77532c472e8d82F2052647322FIMG_1815-300x150.jpg\" alt=\"Ana marques e rafaela\" width=\"300\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/affirmation.org\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/http-2F2Fo.aolcdn.com2Fhss2Fstorage2Fmidas2F641e4cec3f8a8e9b2e77532c472e8d82F2052647322FIMG_1815-300x150.jpg 300w, https:\/\/affirmation.org\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/http-2F2Fo.aolcdn.com2Fhss2Fstorage2Fmidas2F641e4cec3f8a8e9b2e77532c472e8d82F2052647322FIMG_1815.jpg 630w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Aos tr\u00eas anos, Raphaela Marques usava os vestidos da m\u00e3e. Dan\u00e7ando, em frente ao espelho, com uma toalha enrolada na cabe\u00e7a, ela pedia a aten\u00e7\u00e3o e dizia: \u201cOlha, mam\u00e3e, como os meus cabelos s\u00e3o lindos!\u201d.<\/p>\n<div id=\"entry_paragraph_1\" class=\"ad_spot entry-body--paragraph-ad\"><\/div>\n<p>As mem\u00f3rias s\u00e3o de Ana Marques, advogada, e pode ser de qualquer outra m\u00e3e n\u00e3o fosse um detalhe que marcou toda a sua rela\u00e7\u00e3o com a maternidade: Rapha \u00e9 transexual.<\/p>\n<div id=\"entry_paragraph_2\" class=\"ad_spot entry-body--paragraph-ad\"><\/div>\n<p>\u201c\u00c9 dif\u00edcil. N\u00e3o foi tudo lindo. Tudo o que voc\u00ea imaginar das coisas piores j\u00e1 foram ditas para a minha filha. H\u00e1 quase duas d\u00e9cadas eu nem sabia o que era uma transexualidade. Na minha cabe\u00e7a eu tinha um filho gay. Mas eu tinha um filho homem, de corpo totalmente masculinizado, que n\u00e3o se identificava como tal. Eu n\u00e3o tinha par\u00e2metros para aquilo \u201d, desabafa a m\u00e3e em entrevista ao HuffPost Brasil.<\/p>\n<div id=\"entry_paragraph_3\" class=\"ad_spot entry-body--paragraph-ad\"><\/div>\n<p>Ana muitas vezes se viu frente ao dilema de n\u00e3o conseguir ajudar a filha. M\u00e3e solo, mesmo com o apoio financeiro e psicol\u00f3gico do pai, a responsabilidade de compreender cada detalhe da batalha que a filha vivia era dela.<\/p>\n<div id=\"entry_paragraph_4\" class=\"ad_spot entry-body--paragraph-ad\"><\/div>\n<p>Afinal, ser transexual, no Brasil, \u00e9 uma resist\u00eancia di\u00e1ria.<\/p>\n<p>O Pa\u00eds \u00e9 a na\u00e7\u00e3o que mais mata travestis e transexuais do mundo. E essa morte ocorre de variadas formas. O n\u00e3o-di\u00e1logo, o n\u00e3o-reconhecimento, a intoler\u00e2ncia, a aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.huffpostbrasil.com\/2016\/02\/19\/o-brasil-e-o-pais-mais-violento-contra-transexuais-e-o-que-mais_a_21683563\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o maior \u00edndice de consumo de pornografia trans<\/a>\u00a0s\u00e3o apenas algumas delas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/staging.afirmacao.org\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_1811.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-17305\" src=\"https:\/\/staging.afirmacao.org\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_1811-300x169.jpg\" alt=\"Ana marques e rafaela\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/affirmation.org\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_1811-300x169.jpg 300w, https:\/\/affirmation.org\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_1811.jpg 630w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cVivemos numa sociedade heteronormativa e tudo que difere do padr\u00e3o \u00e9 visto como doen\u00e7a, o que acaba sendo uma forma de controlar e produzir h\u00e1bitos esperados e desejados. As pol\u00edticas p\u00fablicas e os recursos dispon\u00edveis para atender \u00e0s necessidades de travestis e transexuais s\u00e3o insuficientes.\u00a0<strong>O di\u00e1logo \u00e9 fantasia e o reconhecimento dos direitos \u00e9 uma ilus\u00e3o. O que h\u00e1 \u00e9 uma concess\u00e3o a conta-gotas de aparentes avan\u00e7os, conforme necessidade reais n\u00e3o s\u00e3o atendidas<\/strong>\u201c, Defende ao HuffPost Brasil Maria Lucia Pereira, psic\u00f3loga e especialista em Sexualidade Humana pela Faculdade de Medicina da USP.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma psic\u00f3loga argumenta que ainda h\u00e1 uma ideia forte arraigada no senso comum de que a transexualidade \u00e9 um transtorno mental. Para refutar tal ideia, ela explica que trata-se de uma quest\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cFalar em diagn\u00f3stico \u00e9 algo pr\u00f3prio para doen\u00e7as, e transexualidade n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a. O Conselho Federal de Psicologia, em 2013, explicitou que a transexualidade e a travestilidade n\u00e3o anterior condi\u00e7\u00e3o psicopatol\u00f3gica, ainda que n\u00e3o reproduzam a concep\u00e7\u00e3o normativa de que deve haver uma coer\u00eancia entre sexo biol\u00f3gico \/ g\u00eanero \/ desejo sexual.<strong>\u00a0Em outras palavras, a transexualidade \u00e9 uma quest\u00e3o de identidade. N\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a mental, n\u00e3o \u00e9 uma pervers\u00e3o sexual, nem \u00e9 uma doen\u00e7a debilitante ou contagiosa \u201d,\u00a0<\/strong>explica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jaqueline Gomes de Jesus \u00e9 doutora em Psicologia Social e pesquisadora da Universidade de Bras\u00edlia. Em seu trabalho\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.diversidadesexual.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/G%C3%8ANERO-CONCEITOS-E-TERMOS.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Orienta\u00e7\u00f5es sobre identidade de g\u00eanero: Conceitos e termos<\/a>,\u00a0<\/em>ela explica como a quest\u00e3o de g\u00eanero \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cComo as influ\u00eancias sociais n\u00e3o s\u00e3o totalmente buscadas, parece para n\u00f3s que as diferen\u00e7as entre homens e mulheres s\u00e3o &#039;naturais&#039;, totalmente biol\u00f3gicas, quando, na verdade, boa parte delas \u00e9 influenciada pelo conv\u00edvio social. Al\u00e9m disso, a sociedade em que vivemos dissemina a ordem de que os \u00f3rg\u00e3os genitais definem se uma pessoa \u00e9 homem ou mulher. Por\u00e9m, a constru\u00e7\u00e3o da nossa identifica\u00e7\u00e3o como homens ou como mulheres n\u00e3o \u00e9 um fato biol\u00f3gico, \u00e9 social. Sexo \u00e9 biol\u00f3gico, g\u00eanero \u00e9 social, constru\u00eddo pelas diferentes culturas. E o g\u00eanero vai al\u00e9m do sexo: o que importa, na defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ser homem ou mulher, n\u00e3o s\u00e3o os cromossomos ou a conforma\u00e7\u00e3o genital, mas a autopercep\u00e7\u00e3o e a forma como uma pessoa se expressa socialmente. \u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas se hoje essas informa\u00e7\u00f5es possuem algum sentido para Ana Marques, \u00e9 porque ela e sua filha Raphaela enfrentaram juntas uma trajet\u00f3ria de preconceitos que s\u00e3o superados dia a dia por meio do di\u00e1logo e da empatia.<\/p>\n<p>Em depoimento ao HuffPost Brasil, a advogada compartilhou a sua experi\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/staging.afirmacao.org\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_1814.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-17307\" src=\"https:\/\/staging.afirmacao.org\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_1814-240x300.jpg\" alt=\"Ana marques e rafaela\" width=\"240\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/affirmation.org\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_1814-240x300.jpg 240w, https:\/\/affirmation.org\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_1814.jpg 630w\" sizes=\"auto, (max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/a><\/p>\n<h2>Meu filho \u00e9 trans, e agora?<\/h2>\n<blockquote><p>\u201cAos 8 anos, a Rapha me disse que estava apaixonada por um menino da sua escola. A gente entendeu que ela poderia ser homossexual. A minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi a de trocar ela de per\u00edodo da escola para ver se ia passar. Naquela \u00e9poca era tudo muito tabu. Mas obviamente isso n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio em nada. Tudo s\u00f3 foi aumentado. Aos 13, a ficha come\u00e7ou a cair. Em uma conversa na cozinha da casa de sua av\u00f3, ela olhou para mim e falou: &#039;Mam\u00e3e, n\u00e3o sei quem eu sou. Eu me olho no espelho e n\u00e3o me enxergo. Eu n\u00e3o gosto do meu cabelo curto, eu n\u00e3o gosto do meu cabelo enrolado, eu n\u00e3o gosto do que eu sou &#039;. Eu nunca vi a minha filha chorar tanto. \u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o aceita aceitar o que ela era simplesmente porque eu n\u00e3o entendia. N\u00e3o existia o Google, sabe? Eu n\u00e3o tinha refer\u00eancias. Eu fiquei desesperada e fui buscar ajuda. Mas a\u00ed voc\u00ea tamb\u00e9m enfrenta o obst\u00e1culo que \u00e9 encontrar pessoas despreparadas para lidar com o tema. Me indicaram um m\u00e9dico que ainda entendia a transexualidade como uma doen\u00e7a mental, uma disforia de g\u00eanero. S\u00e3o esses momentos que nasce a rejei\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea simplesmente n\u00e3o quer conceber que tem um filho assim e que vai ter que lidar com isso. \u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h2>Exclus\u00f5es sistem\u00e1ticas<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cFui atr\u00e1s de informa\u00e7\u00f5es. Eu indicaram o Hospital das Cl\u00ednicas, em S\u00e3o Paulo, onde tive acesso a uma equipe m\u00e9dica ultraprofissional para acompanhar um Rapha. Mas isso s\u00f3 foi poss\u00edvel porque o pai dela tinha uma condi\u00e7\u00e3o financeira de bancar o tratamento. Mas ela n\u00e3o ia parar a vida dela por isso. E foi a\u00ed que come\u00e7ou a saga das escolas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ela estudou at\u00e9 o 9\u00ba ano em uma mesma escolinha aqui em Guarulhos. Quando ia come\u00e7ar o 1\u00ba ano do Ensino M\u00e9dio, procuramos mais de oito institui\u00e7\u00f5es para ela se matricular. Era sempre a mesma coisa. Eu ia at\u00e9 a escola, apresentava uma Rapha, explicava que ela estava em transi\u00e7\u00e3o e que eu precisaria do apoio da escola. A diretora dizia que iria conversar com os pedagogos e me retornaria. Nunca recebi o retorno de nenhuma delas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Resolvi tentar em S\u00e3o Paulo. Nos mudamos para o Itaim Bibi. Conheci uma escola por meio de um site que se dizia defensora da diversidade. Achei incr\u00edvel! Fui conhecer, uma diretora adorou a Rapha e disse que seria um enorme aprendizado para todos t\u00ea-la como aluna. Matriculei a minha filha sem hesitar. Um m\u00eas depois, uma Rapha come\u00e7ou a reclamar que achava o ensino da escola muito fraco. Ela dizia que tinha dias que ela dava aula para os colegas de classe, que ensinava-os a contar e escrever. Fui at\u00e9 a dire\u00e7\u00e3o para o sentido que estava acontecendo. E a\u00ed aparece como surpresas. A Rapha tinha que usar o banheiro de deficiente f\u00edsico. Ela e seus colegas ficavam em uma \u00e1rea separada da quadra, enquanto os outros alunos permaneciam no p\u00e1tio, divididos por uma grade. Ent\u00e3o a diretora assumiu que havia colocado a Rapha em uma turma especial, dedicada a alunos que tinham d\u00e9ficit cognitivo. Aquilo foi um soco no est\u00f4mago. Foi pior do que uma exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em outra escola, minha filha era alvo constante de bullying e viol\u00eancia. Aquilo afetou muito ela. O quadro de depress\u00e3o piorou. Ela simplesmente n\u00e3o ia aguentar. Decidimos que ela n\u00e3o precisava ter que passar por isso para frequentar uma escola. Mas ela quem saiu perdendo. Minha filha perdeu esses tr\u00eas anos de conv\u00edvio escolar, de poder fazer amigos, de se sentir segura, de confiar no ser humano. \u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h2>Uma transi\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAos 14 anos, a Rapha foi uma das mais jovens trans a iniciar o tratamento hormonal no Brasil. Foi preciso bloquear os horm\u00f4nios masculinos e fazer uma transi\u00e7\u00e3o hormonal para os feminimos. E em paralelo a isso teve todo o processo de autoaceita\u00e7\u00e3o. Uma transi\u00e7\u00e3o \u00e9 cruel. E os padr\u00f5es de beleza s\u00f3 pioram isso. Estar gorda, n\u00e3o ter mama, o cabelo ainda n\u00e3o crescer. Tudo era muito intenso e era uma mistura de des\u00e2nimo e vergonha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como m\u00e3e, eu entendi que durante esse processo eu ganhei uma filha corajosa, irreverente e que me ensina a cada dia. Por que eu iria deixar o medo e a tristeza tomarem conta?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aos 16 anos, ela queria sair do Brasil para poder fazer a cirurgia de adequa\u00e7\u00e3o de sexo, mas conselhamos ela a aguardar at\u00e9 que existisse maior de idade e 100% confiante no procedimento. Em 2016, aos 22 anos, com apoio de uma equipe de psiquiatras, psic\u00f3logos, endocrinologistas, ginecologistas e cirurgi\u00f5es, ela realizou o procedimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nunca vai mudar o estigma ou o t\u00edtulo que ela tem. Ela sempre ser\u00e1 uma trans. At\u00e9 mesmo com nome social resolvido. Mas a cirurgia n\u00e3o \u00e9 pra o outro, \u00e9 pra ela. Para a pessoa Raphaela. N\u00e3o \u00e9 para a sociedade, para o namorado ou para os pais. \u00c9 algo muito pessoal e individual. E eu percebo que muita coisa na cabe\u00e7a dela se tranquilizou depois da redesigna\u00e7\u00e3o. \u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Informa\u00e7\u00e3o \u00e9 o caminho para o respeito<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA gente via que tinha algo diferente com a Rapha. E na minha opini\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o enxerga o pai que n\u00e3o quer. Mas eu tamb\u00e9m n\u00e3o acho que os pais precisam lidar com essas situa\u00e7\u00f5es na imprensa. Tudo tem o seu tempo, n\u00e3o se pode antecipar a fase de ningu\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 porque seu filho gosta de usar um vestido aos tr\u00eas anos de idade que ele \u00e9 ou deixa alguma coisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Grande parte do preconceito existe devido \u00e0 falta de informa\u00e7\u00e3o. Mas os pais s\u00e3o seres humanos. Eles geram seu filho, e infelizmente ou felizmente, criam expectativas, sonhos e planos que nem temos direito. Errado ou n\u00e3o, isso acontece.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 preciso deixar claro que ningu\u00e9m escolhe ser trans, l\u00e9sbica, gay. Ningu\u00e9m &#039;vira&#039; nada da noite para o dia. \u00e9 um processo interno que precisa ser respeitado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas a option pelo amor, por entendre o seu filho sempre ser\u00e1 o melhor caminho. A expuls\u00e3o do filho de casa \u00e9 a \u00faltima e a pior op\u00e7\u00e3o que os pais podem fazer, apesar de eu entender o medo que tudo isso gera. E eu tamb\u00e9m considero uma contraparida do filho que pode at\u00e9 tentar enfiar goela abaixo para que o pai entenda 100% do que ele est\u00e1 vivendo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hoje, eu e a Rapha vivemos em um equil\u00edbrio. Se a gente tem alguma chance de encontrar essa harmonia entre as tens\u00f5es dos pais que n\u00e3o consegue entender e dos filhos que tem sim a necessidade de serem aceitos, \u00e9 s\u00f3 por esse caminho do di\u00e1logo e do amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitos preconceitos parecem de casa e se espalham em todas as nossas rela\u00e7\u00f5es. Se a gente alimenta isso, que dir\u00e1 na rua. O que vai parar um desconhecido de violentar o nosso filho? \u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h2>Para especialistas, terapia pode auxiliar no di\u00e1logo<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Edith Modesto, psic\u00f3loga, fundou uma grupo de apoio a pais de homossexuais quando o seu s\u00e9timo filho lhe contou que era gay.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cO GPH foi o primeiro grupo de pais de LGBT do Brasil. Eu o iniciei quando soube que meu filho ca\u00e7ula era gay, pois n\u00e3o tinha com quem conversar e n\u00e3o havia nada sobre o assunto nas m\u00eddias na \u00e9poca \u201d, contou ao HuffPost Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Modesto, tamb\u00e9m, foi a profissional that auxiliou Ana Marques nos primeiros contatos com a transexualidade de Raphaela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando uma psic\u00f3loga sugeriu para a m\u00e3e que a jovem poderia se identificar como trans, Ana se lembra com exatid\u00e3o de ter ficado \u201cmuito brava\u201d com a terapeuta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEla me pedia paci\u00eancia e eu simplesmente n\u00e3o lidar com aquele momento\u201d, explica a m\u00e3e.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Modesto conta que n\u00e3o h\u00e1 uma melhor hora para uma conversa entre pais e filhos acontecer. Mas argumenta que o di\u00e1logo precisa ser constante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 dif\u00edcil, mesmo com muita paci\u00eancia e respeito, acertar a hora de dizer isso para uma m\u00e3e, por exemplo. E \u00e9 por isso que precisamos de um trabalho intenso e educativo sobre quest\u00f5es de g\u00eanero. \u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Maria Lucia Pereira tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para a \u201cdesmistifica\u00e7\u00e3o\u201d do que \u00e9 a transexualidade:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cOs pais s\u00e3o inseridos gradativamente no processo terap\u00eautico para desmistificar a padroniza\u00e7\u00e3o social sobre o conceito de transexualidade, espec\u00edfico, desta forma, facilitar a conviv\u00eancia familiar e de conflitos vivenciados. O acompanhamento psicoterap\u00eautico \u00e9 importante sempre que nos deparamos com instabilidades emocionais profundas, sejamos transg\u00eaneros ou n\u00e3o. O ser humano sempre pode ser um agente criativo na realidade que o rodeia atrav\u00e9s da compreens\u00e3o emp\u00e1tica. \u201d<\/p><\/blockquote>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 dif\u00edcil. N\u00e3o foi tudo lindo. Tudo o que voc\u00ea imaginar das coisas piores j\u00e1 foram ditas para a minha filha. H\u00e1 quase duas d\u00e9cadas eu nem sabia o que era uma transexualidade. Na minha cabe\u00e7a eu tinha um filho gay. Mas eu tinha um filho homem, de corpo totalmente masculinizado, que n\u00e3o se identificava como tal. 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